domingo, 15 de abril de 2012

As flores de Helena - histórias cruzadas

Helena era uma menina que tinha 8 anos, tinha uma irmã e vivia em Santa Marta. A menina gostava muito de flores.

No jardim de sua casa havia muitas flores, de muitas cores. Além de brincar com outros brinquedos, Helena também brincava com as flores, tratava delas, regava-as e falava com elas.

Helena gostava muito das suas flores e era muito feliz!

Débora Correia


As flores e as borboletas - histórias cruzadas


Era uma vez um lindo jardim que tinha muitas flores e borboletas. Era o jardim de Helena.

Helena cuidava das flores e elas cheiravam muito bem.

Uma das borboletas do jardim de Helena chamava-se Joana e gostava de voar de flor em flor, para se alimentar. A borboleta Joana gostava de sentir os perfumes das flores. Sempre que havia sol, Joana voava muito e ficava muito feliz com tantos perfumes diferentes. Às vezes, trazia as suas amigas borboletas para o jardim e juntas divertiam-se muito.

Helena ficava feliz ao ver as borboletas.

Catarina Rodrigues

“O Quê Que Quem” à nossa maneira - leitura e escrita




Árvore é o outono a chegar e as folhas a cair.

Folhas são o movimento das ondas do mar.

Mar é uma extensão de azul com barcos a flutuar.

Pássaros são viajantes que percorrem o mundo extenso.

Mundo é a casa onde sorris, brincamos e vivemos.

Brincar é um jogo de xadrez: move-se uma peça de cada vez.

Amigos são aqueles que guardamos no nosso coração.

Coração é a morada do amor e da união.

União é a árvore que está a florir.

Sónia, Cláudia e Gérson

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Gotinha Mariana - história cruzada



Era uma vez uma Gotinha chamada Mariana e que vivia numa nuvem. Um dia, caiu numa árvore e viu muitos pássaros lá pousados. A Gotinha Mariana pousou nas penas de um pássaro e depois caiu para a terra. Ela escondeu-se num arbusto. Encontrou uma menina muito alta, que sorriu para a Gotinha Mariana. A Gotinha Mariana estava a chorar muito porque as suas irmãs fugiram dela e ela estava agora sozinha.

Catarina Rodrigues

O cavalo branco e o burro Sam. - história cruzada


Era uma vez um cavalo branco, com pintas castanhas e muitos pássaros que eram abrigados por uma grande árvore. Um dia, essa árvore morreu e eles procuraram uma outra árvore. Encontraram uma com três anos e que era filha da que tinha morrido. A árvore mais nova era um salgueiro que dava muita sombra.

Uma vez, um senhor idoso, chamado Rafael, e um menino chamado Pedro iam para a feira vender o seu burrito, o Sam. A caminho da feira, o burro farejou o cavalo de raça lusitana, que tinha fugido. O burro relinchou e foi ter com o cavalo branco. Aí, o senhor Rafael explicou ao cavalo e aos pássaros que ia vender o burro, pois já não tinha comida para lhe dar. Como ali ao lado havia dois campos com muito pasto, o cavalo pediu ao senhor Rafael que deixasse lá o Sam e assim teria mais companhia, além dos pássaros. O senhor Rafael e o Pedro acharam que era uma boa ideia, pois assim poderiam visitá-lo sempre que quisessem.

Filipe Abel Gomes

O pica-pau e o pavão



Era uma vez um pica-pau, que voava pela aldeia e encontrou um menino chamado João Pedro. Este menino tinha um nariz muito comprido e o pica-pau pousou no seu nariz. Tirou-lhe algumas catotas e voou rapidamente para o seu ninho, para alimentar os filhotes. De repente, chegou um pavão e viu o pica-pau a alimentar os seus filhotes. Foi então que o pavão perguntou:

-O que estão a comer?

E os filhos do pica-pau responderem:

- Estamos a comer catotas.

Então disse-lhes o pavão:

- Larguem isso, eu trouxe-vos minhocas.

Os bebés ficaram muito felizes e agradeceram as minhocas ao pavão.


João Pedro Araújo


O pássaro colorido e a flor - história cruzada


O pássaro colorido encontrou a flor, que nasceu da semente e da raíz sem medo. O pássaro colorido penicou a flor para comer as sementes do girassol. O pássaro ficou com o papo cheio e foi para o ninho dormir.

Manuel Casimiro

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A MENINA DESPASSARADA - escritor Nuno Higino


Escritor Nuno Higino


Imagem de Catarina Rodrigues


Era uma vez uma menina que tinha o hábito de andar com a cabeça no ar. Por isso, criou uma grande amizade com os pássaros. Eles cantavam e ela respondia cantando. Eles voavam e ela corria, desenhando círculos, como se voasse também. Eles bicavam o azul e ela sorvia o céu com os olhos. Eles desapareciam nos seus esconderijos e ela enfiava-se nos lugares mais recônditos que havia dentro de si.

Um dia, perguntaram-lhe:

- Gostas de ser como os pássaros?

E ela respondeu:

- Gosto!

- Porque gostas de ser como os pássaros?

- Porque os pássaros voam – disse prontamente.

- Mas tu não tens asas para voar.

- Voo com os olhos.

- Mas os olhos não voam.

- Isso é que voam. Voam tão longe como os pássaros.

A menina despassarada não gostava de ser interrogada, sobretudo quando lhe faziam perguntas tontas como estas. Admirava-se por não saberem que os olhos voam. E pensava: ‘como devem ser tristes as pessoas que não sabem que os olhos voam!’

Ficava com pena mas não perdia mais tempo a pensar nisso. Em vez de pensar, erguia a cabeça para o ar e pasmava a olhar os pássaros. A menina despassarada tinha os olhos grandes, muito maiores do que é habitual as pessoas terem. Era de tanta pasmar que os olhos lhe cresciam. Dentro deles cabia muito céu e à sua volta voavam os pássaros. Tinha as pernas compridas, os braços longos e uma blusa cor-de-laranja com flores no lugar dos botões. Ela sabia porque havia flores no lugar dos botões: porque não gostava de andar abotoada. Mas não sabia porque é que a blusa era cor-de-laranja e não vermelha, azul ou cor-de-rosa.

Para quem tem os olhos pequenos, os pássaros são todos iguais e a preto e branco. Quem tem os olhos grandes, como tinha a menina despassarada, vê pássaros de muitas cores. Ela via pássaros vermelhos, verdes, amarelos, roxos e de outras cores para as quais ainda não tinha encontrado nome. Não fazia mal. Dar nomes às coisas é domesticá-las e a menina despassarada queria que os seus amigos pássaros continuassem a voar livremente pelo céu além. Preferia dizer que, para além dos pássaros verdes, vermelhos, amarelos e roxos, havia outros da cor-do-vento, outras da cor-da-manhã, outros da cor-da-alegria, outros da cor-do-burro-quando-foge.

- Bom-dia, menina despassarada! – Saudou alguém que passava.

- Bom-dia – respondeu sem olhar.

- Só tens olhos para os pássaros…

- E já não é pouco – disse, sem desviar o olhar do céu.

- Se continuas assim, um dia os pássaros fazem-te ninho nos olhos.

- Deixá-lo! É melhor fazerem-me ninho nos olhos do que atrás da orelha.

Não ligou a quem a saudou, mas ficou com aquela frase a voar na cabeça: ‘um dia os pássaros ainda te fazem ninho nos olhos’. Olha que boa ideia! Era da maneira que lhe nasceriam pássaros nos olhos, centenas, milhares, milhões de pássaros a sair-lhe dos olhos e a riscarem o céu como se fossem lápis-de-cor sobre um caderno.

E não é que aconteceu mesmo? Quando chegou a primavera, veio um pássaro com um pauzinho no bico e colocou-o num dos olhos. Depois veio novamente e deixou uma ervinha. Veio outra vez e colou o pauzinho e a ervinha com um pouco de lama. Durante vários dias, incansavelmente, o pássaro construiu o seu ninho. Ainda este não tinha acabado, veio outro e fez o mesmo no outro olho. A menina despassarada tinha agora ninhos nos olhos. E, não tardou nada, os ninhos ficaram cheios de ovos. E quando chegou a altura, os ovos partiram e, de dentro deles, começaram a sair pássaros.

A menina amiga dos pássaros estava mais despassarada do que nunca. Havia chilreios em todos os lugares da sua meninice.

- A menina está com cara de quem viu passarinho verde… - disse alguém que andava por ali.

- Vi e incubei – respondeu enquanto mais pássaros lhe caíam dos olhos e se lançavam à aventura do primeiro voo.

- Que segredos não escondem esses olhos grandes…

- Os olhos escondem mais do que mostram, é verdade – anuiu a menina despassarada.

- Deixas-me morar nos teus olhos?

- Não podes, não tens alma de pássaro.

- Não me conheces, como podes dizer isso? – Impacientou-se quem andava por ali.

- As pessoas são previsíveis e só usam os olhos para roubar a inocência das coisas.

- Adeus!

A menina amiga dos pássaros olhou para trás para ver quem falava com ela. Nesse momento, caíram os ninhos que tinha nos olhos. Já não viu ninguém. Começou a passarinhar sem destino. Na próxima primavera, voltarão os pássaros para construir ninhos nos seus olhos.

Janeiro de 2012

Escritor Nuno Higino


NOTA BIOGRÁFICA DO AUTOR

Nuno Higino (Felgueiras, 1960) é professor de filosofia e sociologia na Universidade Fernando Pessoa. Foi pároco em Marco de Canaveses e aí viveu treze anos intensos, acompanhando a construção da Igreja de Santa Maria, projetada por Álvaro Siza Vieira. Em 2005, renuncia ao sacerdócio e regressa ao estado laical. É licenciado em Teologia e doutorado na área da Filosofia Estética com uma tese sobre os desenhos de Álvaro Siza, uma leitura a partir de Jacques Derrida, a qual defende em Madrid, 2007.

Integra a equipa de trabalho da Associação Casa da Arquitectura.

Faz parte da direcção da Cooperativa Árvore e da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Tem vários títulos publicados da área da poesia e da Literatura infanto-juvenil.




quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A árvore dos pássaros coloridos - Daniel Marques Ferreira


Escritor Daniel Marques Ferreira




Imagem Andreia Ribeiro


O senhor João e a senhora Rosa tinham já muita idade. Contudo, mantinham viva e firme a sua grande amizade, que nascera nos dias em que eram ainda crianças.

- Lembras-te, de quando vínhamos para aqui brincar? – perguntou o senhor João à velha amiga, numa tarde em que estavam ambos sentados debaixo daquela árvore, tão antiga que ninguém sabia ao certo os anos que ela tinha.

- Se me lembro! – suspirou a senhora Rosa. – E bem me recordo da tua mania, em subir ali acima, à cata de ninhos de pardais. Malandro, que tu eras!

Agora, que viviam sós – ambos tinham já perdido os seus esposos e os filhos haviam abalado para longe –, que os muitos anos vividos os deixara de cabelos brancos e de passos vagarosos, os dois idosos mantinham aquele hábito: desfiar lembranças sob a sombra generosa daquela árvore. Mal a primavera abria os braços ao tempo gostoso, era vê-los ali, como meninos de outrora a procurarem os seus brinquedos em baús antigos. Sim, chega a altura em que, as recordações são, tal qual brinquedos mágicos!

Certo dia – ou melhor: certa tarde, as suas doces conversas foram interrompidas pelo mau humor do senhor António, vizinho rabugento que vivia mesmo em frente da frondosa árvore.

- Tenho de mandar podá-la! As suas flores causam-me alergia – reclamou o homem, no jeito rezingão de quem tem raiva da vida.

- Podá-la!? – surpreendeu-se a senhora Rosa. – Você deve estar a brincar!

- Brincar coisa nenhuma! Quando vem a primavera, não paro de espirrar por causa das flores dessa árvore – continuou o senhor António.

- Vai tirar-nos esta deliciosa sombra? – perguntou o senhor João, que nem queria acreditar no que estava a ouvir.

- Se querem sombra, arranjem um chapéu – reclamou o mal-humorado, recolhendo de seguida a sua casa e batendo a porta com estrondo.

Os outros, para não desanimarem, comentaram que aquela reclamação, certamente não passava de um desabafo passageiro.

Porém, dias depois e para enorme e triste surpresa de ambos, quando chegaram ali, depararam com a árvore despida de folhas e de flores. Aquela sua velha amiga estava, agora, transformada num tronco choroso, segurando alguns galhos completamente desnudados. Era como se uma tempestade impiedosa tivesse passado por ali, e levado para longe, toda a sua verdura e todo o seu perfume.

- Como conseguiu o senhor António, que alguém fizesse isto à nossa árvore? – perguntou a senhora Rosa, num fio de voz.

- Ora, como conseguiu! Ele é amigo do presidente da junta, e consegue o que quer – respondeu o senhor João, muito ciente do que estava a dizer.

O mal já estava feito, e nada o podia remediar. Por isso, os dois amigos sentaram-se debaixo da árvore despida de folhagem e de flores, e, como ela, mergulharam numa profunda tristeza.

Após uns momentos de silêncio, numa voz tão lastimosa que teria comovido quem a escutasse, a senhora Rosa lamentou:

- Que triste está a nossa árvore! Assim, tão despida e solitária, via morrer de desgosto!

Na altura em que ela dizia isto, o vento, a passear por ali nesse momento, agarrou nestas palavras e levou-as nas suas asas. Depois, lá longe soltou as palavras, que esvoaçaram como pétalas de uma mensagem.

Por um acaso – ou talvez não –, naquele espaço esvoaçavam também um bando de lindos pássaros, muito coloridos. Tão bonitos eram, que, quem olhasse para eles, logo sentia o próprio olhar envolto numa onda de festa. Na verdade, eram a coisa mais linda de se ver. Contudo, ao contrário das pessoas demasiado bonitas que tantas vezes são muito vaidosas, estes pássaros tinham uma generosidade tão grande quanto a sua beleza. Assim, mal escutaram aquela mensagem, e depois de perguntarem ao vento onde vivia a triste e castigada árvore, decidiram em coro:

- Vamos viver nela, e enchê-la de cor e alegria!

Se bem o decidiram, melhor o fizeram!

Tão velozmente quanto as suas asas multicores o permitiam, cruzaram o céu, em busca da sua nova morada.

Quando lá chegaram, o senhor João e a senhora Rosa ainda comentavam o azar da árvore, que conheciam desde que eram crianças.

- Vai levar muito tempo, até que volte a ficar frondosa, verdejante e florida – lamentou homem.

- É! Já não será para os nossos dias! – concordou a amiga.

Nesse instante porém, o chilreio dos pássaros coloridos, o agitar festivo das suas asas lá em cima, sobre a árvore despida, fez com que os dois amigos erguessem a cabeça para o céu e contemplassem aquele milagre.

O velho tronco agitou-se com doçura e abriu os seus galhos como braços que recebem um amigo, pois sentiu que a vida estava de regresso para si.

Agora, os dois idosos podem já não ter sombra para desfrutar, contudo, a festa e a alegria daqueles pássaros coloridos, é quanto basta para os deixar felizes.

O senhor António?! Esse reclama pelo piar das aves, mas nem o presidente da junta consegue fazer nada. Podem agitar paus para enxotar os pássaros, mas eles regressam sempre, horas depois, para encherem de vida aquela árvore secular.


História de D.M.F., a partir de uma ilustração de Andreia Ribeiro

Escritor Daniel Marques Ferreira



Senhor Daniel,

Quando iniciámos a leitura das histórias do livro "O Leão comilão e outras histórias que aqui estão", gostei muito de uma. Agora, vou partilhar consigo a minha opinião.

Gostei imenso desta história porque é muito engraçada, pelo facto de o Ganso ser "tanso" e a menina (acho que é uma menina) o ter sentado à sua mesa, como se tratasse de uma pessoa. Recorreu a almofadas para que o seu amigo chegasse à mesa e pudesse alimentar-se, já que ali os outros habitantes da capoeira não lhe retiravam a comida, penicando-o.

A menina tentou que o Ganso aprendesse a usar os talheres, mas não conseguiu. Gostei de ver a ilustração do Ganso a comer esparguete sem usar os talheres.

O que mais apreciei foi o facto de a menina gostar muito do Ganso, apesar de ele não ser despachado como os outros. Esta história mostra que pode haver sentimentos bonitos, mesmo que haja limitações naqueles dequem se gosta!

Resta-me agradecer a sua visita ao nosso Agrupamento. Gostei de o conhecer pessoalmente.

Até à próxima!

Com os melhores cumprimentos,

Andreia Ribeiro

Email enviado




terça-feira, 1 de novembro de 2011

A fantasia do Abel - Rosa Guedes

Escritora Rosa Guedes

Imagem Filipe Abel Gomes


Para uma festa tropical

Fui convidado

Mas o traje ainda não tinha encontrado

Falei com a minha mãe que me deu permissão

Mas logo me disse:

“Não tenho um tostão!”

Pensei, repensei

Queria muito uma novidade

Que mostrasse toda a minha vaidade!

Enquanto não vinha a imaginação

Peguei num lápis

Comecei a afiá-lo

Com muita calma, pois então!

Uma apara em saia rodada

na mesa poisou

e logo uma em leque se lhe juntou…

Triangulares, redondas, em cone ou

em quadrado…

Eram tantas as cores e formas que eu estava encantado!

Um boné de apara encarnado

Umas luvas negras de mago

papillon de lápis azulado

Nem pareciam aparas, mas sim um fato lindo de brocado!

A mãe adorou! Que bela fantasia!

Como eu me diverti no meu fato – aparas plissadas de magia.!!!

Rosa Guedes,

Junho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

O avião que se ri _ Carlos Vaz

Escritor Carlos Vaz




Imagem Andreia Ribeiro

Como psicólogo, pediram-me para prestar alguns serviços de urgência no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Por isso, quando lá cheguei, compreendi que tinha muito trabalho, pois os aviões rapidamente começaram a entrar pela porta do gabinete (provisoriamente instalado numa enorme sala, para o efeito), queixando-se de incríveis maleitas de todos os tipos e feitios. Uns lamentavam-se das vertigens, outros de um medo incompreensível de voar. Havia ainda um avião que sofria do mesmo problema dos que tinham medo de levantar o pé do chão, só que ao revés, ou seja, nunca queria pousar um pé em terra, por esse motivo andava sempre às voltas durante toda a sessão. Foi por entre estes aviões singulares que conheci o avião mais macambúzio da pista, era tão beiçudo que ninguém se atrevia a embarcar nele, com o receio de alguma refrega. Perante tantas queixas, os mecânicos tentaram aparafusar-lhe o humor que faltava, mas tudo o que conseguiram foi uma tal resmunguice dos potentes motores que lhes ficaram a zumbir os tímpanos durante uma semana.

Quando o recebi, não me dirigiu a palavra uma única vez, de início parecia-me tímido, mas depressa compreendi que era simplesmente casmurrice. Decidi então fazê-lo rir um pouco… contei-lhe algumas anedotas sobre helicópteros (é sabido que todos os aviões gostam de ouvir boas anedotas sobre as maluquices dos helicópteros), mas nada, nem um único esboço de sorriso, depois falei-lhe da divertida história da avioneta pitosga que se enganava no aeroporto e aterrava sempre numa leira aqui perto… pois bem, foi exactamente enquanto lhe contava esta história que aconteceu o seguinte… vindo do nada, um avião caiu na outra ponta do meu sofá, atirando-me, imaginem bem, para o alto candeeiro da sala onde fiquei pendurado. Era o avião que não queria aterrar que, já sem combustível, resolvera, por fim, pousar no meu confortável sofá… esquecera-me totalmente dele, lá em cima, longe do meu olhar. Assim, perante aquele cenário tão cómico, o avião antipático soltou uma longa gargalhada, mostrando uma dentição completamente arruinada, muito fanado, com os dentes por lavar e até alguns podres, com um incrível mau-hálito quase impossível de descrever.

Foi assim, desta forma tão estranha, que cheguei à conclusão que o avião resmungão não precisava de um psicólogo, mas antes de um bom dentista. Seguiu o meu conselho, por isso é que hoje, com dentadura nova, é o avião que mais ri em toda a pista, ri das anedotas de helicópteros, das queixas da avioneta e do avião que nunca quer pôr o pé no chão. Ri, ri de tal forma que todos querem nele voar, porque na verdade todos sabem que o riso faz a qualquer um levantar voo.

Se forem um dia ao Aeroporto Internacional Francisco Sá Carneiro, podem perguntar pelo avião que se ri. Se o encontrarem contem-lhe a anedota do helicóptero que não parava de andar à roda, é a sua favorita

Carlos Vaz


terça-feira, 10 de maio de 2011

O Monstro dos Agrafos - Manuela Costa Ribeiro

Escritora Manuela Costa Ribeiro



Imagem de Raúl Gomes



Ao Raúl Gomes

Raúl sonhava todas as noites com o mesmo monstro. Tinha pesadelos. Sentia-o entrar pela janela do quarto e estender os braços na sua direcção. Eram uns braços longos e grossos. Pareciam quase os ramos de uma árvore secular. Ramos presos a um tronco imenso que ficava do lado de fora da janela. Os dedos longos e finos, brancos e frios. Pareciam feitos de neve, mas não se desfaziam embora fossem gelados. Ou era Raúl que gelava de medo e acordava em sobressaltos.

Por isso, todas as noites, quando chegava a hora de deitar, Raúl ia tentando prolongar a sua presença na sala. Enchia a mãe e o pai de perguntas. Tinha sempre mais um exercício para resolver. Eram infindáveis os trabalhos de casa. Nunca se dedicara tanto aos estudos. E nunca tinha sono. Olhava em todas as direcções. O seu olhar atento percorria todas as janelas. E finalmente, quando a mãe insistia:

- Raúl, vá lá, dormir! Anda lá, que te conto uma história. Amanhã tens aulas.

Lá vinha o mesmo pedido:

- Mãe, pai, posso dormir no vosso quarto? Por favor?!

Raúl só pensava em esconder-se nos lençóis da cama dos pais e sentir-se seguro entre os dois. Assim, protegido dos dedos de chumbo do mafarrico, que, sabia, viria assombrá-lo, uma vez mais. E insistia:

- Por favooooor!? Prometo que não dou pontapés! Durmo sem me mexer. Prometo!

- Vá lá, Raúl, então? Tu és um rapaz forte. Não tens medo de um monstrinho qualquer, não é? Vais ver que esta noite ele foi brincar com outro menino!, dizia o pai, tentando desvalorizar a situação, mas visivelmente preocupado.

Todas as noites, os pais deitavam-se com esperança de que estes episódios terminassem a qualquer momento. Todas as noites, porém, a mãe corria em socorro de Raúl, que acordava aos gritos, com os olhos sufocados de lágrimas.

Raúl sonhava repetidamente o mesmo sonho ruim, com o mesmo monstro dos agrafos. Parecia quase um fantasma, terrivelmente grande e desajeitado, vestido de branco, de um branco mais branco que o branco do sabão com que a mãe o lava antes de ir dormir. De um branco mais branco do que a branca espuma que lhe sobra dos lábios quando escova os dentes. Por cima do fato cor de algodão, uma capa do mesmo tom, debruada de agrafos de cinza. Não conseguiu nunca vê-lo por inteiro. Mas pelo tamanho dos dedos, das mãos, dos braços, só podia ser um mostrengo. O monstro dos agrafos. Era assim que lhe chamava. Só lhe vira os olhos uma única vez. De um vermelho-fogo. A espreitar por entre a brancura das vestes.

Sempre que Raúl acordava em altos berros, o gigante desaparecia, por trás de uma nuvem de fumo quase transparente e ninguém dava por nada. Aquele horrendo espantaraúl nunca foi visto por mais ninguém.

Os pais, cada vez mais atentos e preocupados, mesmo querendo acreditar que se tratava de uma fase passageira, começavam a desesperar em busca de explicações e chegaram mesmo a marcar consulta no psicólogo.

Por trás do musgo das árvores mais antigas do Monte, à medida que o tempo ia passando, Agrafítico, no seu esconderijo triste de plantas verdes de grande porte, sentia-se cada vez mais só. A família não havia maneira de conseguir explicar-lhe que há muito não havia qualquer contacto entre humanos e agrafos.

Há séculos que tinham deixado de conviver. Desde aquele dia em que um incêndio destruiu a floresta e obrigou os titãs a deixarem a sua toca escondida por entre a vegetação das montanhas. Há muitos e muitos anos. Tantos que já nenhum homem se lembrava. Tantos que, na comunidade dos Agrafos, nem o Avô Agrafútico, nem a avó Agrafética tinham qualquer memória. Tantos que só o mais velho, Agrafeolítico, se recordava. Por sorte e por mágica, não morreram todos naquele rasto de fogo e de humilhação.

Aí ficaram em suspenso os longos tempos de sã convivência e amizade.

Agrafítico é que não se deixava convencer. E mais: acreditava que só uma aproximação aos humanos seria a solução para que os Agrafos não se extinguissem. Não desaparecessem de vez da face da terra.

Agora que ele e o que restava do seu clã tinham conseguido regressar ao mesmo bosque de antes e tinham recuperado a sua gigantesca caverna, no Monte de Sta. Luzia, tinha de ter confiança. Estava farto ser de filho único e a única criança da aldeia. Zangava-se.

- Mamagráfica, assim nunca vou ter amigos com quem brincar! Só eles é que me restam! Ai! Brrrrrrr…

- Mas, Agrafítico, não vês que…

- É com os mais pequenos da aldeia, sim! Choramingava sem esconder uma grande raiva, tão grande como o seu grande corpo de adamastor.

Com passos apressados de birra, Agrafítico saiu em busca das magias e feitiços do mais velho, Agrafeolítico, que tudo sabe.

Ao chegar à clareira mais luminosa da floresta, onde ao meio-dia em ponto, todos os dias, a luz do sol se desfaz em salpicos de ideias livres, lá estava o mestre sentado em frente a uma grande fogueira sem labaredas e sem fumo. Com os olhos postos no seu caldeirão de poções vazias, mexia e remexia com uma colher de pau de cabo comprido, lenta, muito lenta, e sábia, muito sábia.

E sem que Agrafítico tivesse tido sequer tempo de soltar um ai, já o mais velho, Agrafiolítico, olhos-nos-olhos do gigante petiz, muito pausadamente, como quem soletra palavras sonâmbulas, aconselhou:

- A fé nun-ca per-cas! Ve-jo tu-do no qua-dro bran-co em luz des-fei-ta no es-pe-lho do ou-tro la-do da lu-a.

Depois parou. Concentrado. Levantou a cabeça e projectou os olhos na direcção do Lima. Percorreu, com a sua visão perspicaz e atenta, as águas perdidas no labirinto do estuário. E ali, no rio, fixou o brilho intenso do seu olhar de sabedoria. No exacto lugar onde seivas que escorriam de fontes e nascentes, recolhidas pelo leito doce do rio, alimentavam milhares de vidas minúsculas. No exacto lugar onde o sal das ondas salgadas fertilizava as terras. Ali, observou, com toda a atenção, o céu reflectido na transparência da foz. Como se, ali, estivesse todo o conhecimento. Como se, dali, viesse a resposta para todos os mistérios. E profetizou:

- No-vos a-gra-fos es-tão pa-ra vir! E a-mi-gos. Mui-tos a-mi-gos. A-le-gri-a. Fe-li-ci-da-de. É i-sso que re-ve-la o li-vro sa-gra-do dos a-gra-fos an-ti-gos!

Ah-ah-ah-ah-ah-ah!

Levantou a voz e içou os grandes mastros dos braços, deixando-os cair, de repente.

Crac-crac-crac. Craaaaaaaac. A montanha estremeceu.

Depois sentou-se, cansado. O mais velho, Agrafeolítico, era mesmo muito velho. As barbas brancas arrastavam pelo chão, tão compridas quanto o seu cabelo branco, mais branco do que o branco do gelo preso nos picos mais altos.

Agrafítico, mais certo do que a certeza de estar a fazer a coisa certa, perseguia a sua agrafítica aventura. Muito depois de o sol se pôr e com a cumplicidade da lua cheia que o escondia por entre os seus traços riscados de luz, visitava Raúl. Ficava horas a vê-lo dormir. A observá-lo. A estudar os seus gestos, as suas expressões. Sorria com os sonhos felizes de Raúl e, mesmo sem querer, era o seu pior pesadelo. Embora o que quisesse fosse, afinal, brincar com Raúl e com os seus companheiros, como uma criança da sua idade, apesar do seu grande tamanho. Mal tentava, contudo, entrar pela janela por onde só conseguia espreitar, mal ousava fazer um mimo a Raúl, já este gritava a bons pulmões: mãaaaaaaeeeeeee! e já a mãe corria em seu auxílio.

Agrafítico desaparecia, mais rápido do que uma bola de sabão desfiada no ar. E repetia em eco, de si para consigo, como quem precisa de repetir para acreditar, as palavras que tinha escutado de Agrafeolítico:

- A fé nun-ca per-cas! A fé nun-ca percas! A fé nun-ca per-cas!

Na manhã seguinte, de sol ou de chuva, à hora do recreio, era vê-lo, disfarçado nas nuvens, em delírio com as brincadeiras dos meninos. Imaginava-se a correr, a brincar às escondidas. Até a esconder-se atrás das árvores, no meio dos arbustos e nos campos de flores que rodeavam a escola. E, com a cabeça e com o corpo todo quase a cairem da nuvem onde estava abrigado, acompanhava os passos de Raúl e dos seus amigos a caminho do campo de futebol.

- Será que um dia poderei jogar à bola com eles? Ai como eu gostava! Suspirava Agrafítico nos seus pensamentos mais profundos e irrequietos.

De cada vez que Agrafítico inspirava o ar para deixar sair um suspiro, um repelão de vento empurrava a bola para o campo adversário e Raúl marcava golo. Braços no ar, gritava: Goooolooooooo! Feliz Raúl. Agrafítico sorridente apesar de triste e ansioso, sem nunca desistir de conquistar o coração de Raúl.

Em mais uma das noites longas, daquelas em que não tinha vontade de dormir e ia prolongando os trabalhos de casa pela noite dentro, Raúl ligou o “Magalhães”. Tinha deixado para tarde a pesquisa que o professor pedira para fazer, na internet, sobre o Monte de Santa. Luzia. Uma investigação para o novo projecto. Clicou no Google e escreveu “Monte de Santa Luzia”.

De repente, por entre as pesquisas distraídas, já mais atentas às janelas, leu um título que lhe despertou os sentidos: “monstro dos agrafos”.

O seu corpo tremeu da cabeça aos pés. Ficou arreliado de medo! Mudo! Não podia ser! Olhos arregalados, pregados no ecrã. Sem conseguir reagir. Respirou fundo. Esticou as mãos. Encostou as costas à parte de trás da cadeira. Estático. Apenas conseguiu articular:

- Mãe! Mãaaeeee! O monstro!

Foi mais forte a curiosidade e antes mesmo que a mãe respondesse, os seus dedos, mais rápidos que o seu raciocínio, deram início a uma dança frenética no teclado à procura de mais informações. Clica daqui, clica dali, clica dacolá! Abre uma janela e outra e ainda outra! E eis que lhe aparece a imagem do “Monstro dos Agrafos”. Tal e qual aquela que via nos seus pesadelos sobressaltados. Não podia ser! Boquiaberto, voltava a chamar:

- Mãe! Mãaaeeee! O moooooonstro!

- Filho! Filho! Raúl, tem calma! A mãe está aqui, então? Tentou acalmá-lo a mãe, já com os seus braços em volta do miúdo.

- É ele, mãe. É ele. É verdadeiro. Os monstros dos agrafos existem, mãe. Olha, diz aqui! No Monte de Santa Luzia!

No visor do computador, aparecia a imagem de um monstro branco, todo branco, com uns pêlos maiores, de cor cinzenta, a sobressair da brancura que lhe cobria a pele. Devia medir uns 3 metros de altura, os braços grossos e longos a tocarem o chão. O nariz largo e achatado tapava a boca, que nem parecia nada grande. Os olhos, vermelhos, muitos vivos. E embargados de ternura. Sim. Transmitia afabilidade aquele olhar encarnado. Até tinha um ar simpático aquele monstro dos agrafos. Raúl teve vontade de lhe tocar. De sentir como era. De falar com ele. De lhe perguntar porque lhe povoava os sonhos. Raúl estava surpreendido mas feliz. Afinal o pesadelo não mais seria um pesadelo. A partir daquela noite poderia dormir sem medo. E, no dia seguinte, contaria tudo aos colegas. Mal podia esperar. Descansado de tanta canseira, adormeceu de cansaço.

Já o sono ia profundo e eis que o misterioso espantaraúl que antes lhe sufocava a tranquilidade das noites, chegava agora para a embalar. Desta vez, Raúl deixou-se tocar pelos dedos delgados e frescos como o orvalho da manhã, e sorriu. Virou-se para o outro lado segurando na sua minúscula mão o único dedo de Agrafítico que conseguia agarrar: o mindinho. O pequeno gigante não cabia em si de alegria. Conseguiu espreitar pela janela, aberta de par em par, com os seus olhos de papoilas enormes em dia de primavera, e viu o sorriso estampado no rosto de Raúl, a dormir, sereno e profundo e sem sustos, sem choros, sem gritos. Ali se deixou ficar, vigilante, com os seus brancos dedos, mais brancos que o branco do algodão doce das Festas da Sra. da Agonia, enlaçados nos minúsculos e frágeis dedos de Raúl. E ali, do lado de fora da janela do quarto, acabou por adormecer.

Quando Agrafítico acordou, por fim, já o sol ia alto no céu sem nuvens e completamente a descoberto. Raúl, a mãe, o pai, e até os vizinhos, pasmados, observavam-no com uma daquelas curiosidades de quem vê coisas muito estranhas, coisas de espantar.

Já todos sabiam da antiga convivência tu-cá tu-lá entre humanos e agrafos, em tempos que já lá vão. Todos estavam admirados porque há muito que os monstros tinham sido dados como extintos. Há muito que ninguém falava deles. E todos se mostravam agora animados por saberem que estavam de volta.

Agrafítico e Raúl tornaram-se grandes amigos, os melhores amigos. Agrafítico brinca com as crianças da aldeia e faz parte da equipa de futebol da escola. É guarda-redes e nunca mais a equipa sofreu nenhum golo. A escola Pintor José de Brito está à frente do campeonato inter-escolar. Tem vencido todos os torneios.

Raúl é visita frequente da gruta dos agrafos e já conheceu toda a família. Estava lá no dia em que a mãe Agrafática e o pai Agrafótico anunciaram, diante de todo o grupo, com muita pompa e mais circunstância, que Agrafítico iria ter um irmão.

Na clareira mais luminosa da floresta, onde ao meio-dia em ponto, todos os dias, a luz do sol se desfaz em salpicos de ideias livres, o mais velho, Agrafeolítico, que tudo sabe, guiou o seu olhar de velas soltas pelas águas limpas da enseada. Com os olhos parados no exacto lugar onde o sal das ondas desmaia na espuma de algas e sargaços, com uma voz solene e arrastada, sílaba a sílaba, sentenciou:

- A-gra-fa-úl se-rá o no-me des-ta cri-na-ça! Em ho-me-na-gem à re-no-va-da es-pe-ran-ça que nos trou-xe o no-vo a-mi-go Raúl.

Agrafítico e Raúl ficaram alegres, nas nuvens. É lá que se encontram todos os finais de tarde, quando o sol está quase, quase a partir e a lua quase, quase a dizer boa noite. Ali se sentam, felizes e divertidos, com o olhar pousado na linha do horizonte, onde sol e mar se cruzam.

Despedem-se do astro-rei:

- Adeus Sol, até amanhã! Diz bom dia aos meninos do outro lado da terra.

Saúdam as estrelas do céu reluzente e dão as boas vindas à lua mais nova ou mais cheia, mais crescente ou mais minguante, mas sempre bem-disposta.

- Olá Lua, trazes bons sonhos?

Póvoa de Varzim, Abril de 2011

Manuela Costa Ribeiro